sábado, 3 de março de 2012

7º Lugar no XXXV Concurso Internacional de Poesias, Contos e Crônicas

Bola Perdida

No campo de terra batida do bairro, muito novo ainda, descobriu que o drible, além de um momento mágico, era tudo de que precisava para se dar bem na vida, quer fosse para desvencilhar-se da marcação dos zagueiros e fazer o gol, quer fosse para fugir dos garotos maiores e cheios de más intenções...  Ou ainda para sair incólume em seus primeiros delitos: pequenos furtos nas quitandas, incursões aos quintais dos vizinhos e os “tombos” dados no comércio local. Mas jamais admitiu ser driblado e quem o fazia quase sempre se arrependia.
            Aos doze anos já era trombadinha tarimbado e cheio de ginga e, como na canção popular, “Deus lhe dera pernas compridas e muita malícia, para corre atrás de bola e fugir da polícia”. Antes de qualquer jogada de efeito nos campos de várzea, ou nos golpes aplicados, repetia para si:
            _ Olha “a dibra”!
À medida que se safava das confusões ou das pancadas dos zagueiros tornava-se mais esperto, ambicioso e principalmente, abusado. Dos pequenos furtos saltou para ações mais ousadas e assaltos à mão armada, da lata de thiner e de cola evoluiu para drogas cada vez mais pesadas. Corpo magro, esguio, pernas compridas e sorriso farto, um “expert” na arte da finta... Na bola e na vida! Os mais velhos bem que tentaram lhe aconselhar a dar novo rumo à sua vida, mas em vão:
            _ Deixa de malandragem e se emenda. Por que você não tenta o futebol? Leva tanto jeito...
Mas o futebol profissional não era para ele. Não para ele, indisciplinado por natureza, que não aceitava nenhum comando, desconhecia todas as normas e regras e era avesso às ordens de qualquer natureza. Não, ele nascera para o futebol de várzea e para a malandragem.
            Aos vinte anos já era bandido famoso e temido no estado, com cabeça a prêmio, na polícia, na milícia e entre bandidos rivais; porém, sempre se safando na base do drible e se gabando:
            _ Não conheci zagueiro, nem bandido e nem polícia a quem eu não desse a “dibra”.
            Mas, como “não há bem que sempre dure e nem mal, que não se acabe”, e sempre “atrás de morro, tem morro” numa “pelada” de final de semana num campinho de terra da favela, apareceu um moleque de seus quatorze anos, muito parecido com ele: corpo “mirrado”, pernas muito finas e compridas e aquele sorriso malicioso de projeto de bandido. E, de repente, o garoto de posse da bola bem na frente da torcida, “pedala”, ginga para a esquerda e para a direita, passa o pé sobre a bola e lhe dá uma “caneta”, passa a bola entre suas pernas; pára, sorri despreocupado e maliciosamente e escapa da pancada que quebraria as “perninhas de saracura três potes”. Mais três adversários são driblados e o garoto marca um belo gol por cobertura, para delírio dos torcedores.
            Após o jogo, o menino atrevido na mira. O soco na cara. O sangue escorrendo do nariz quebrado. O moleque no chão. Ele se volta senhor de si e do mundo, com “a suprema vaidade e o ego amoral dos grandes criminosos do mundo”; quando alguém lhe manda tomar cuidado, se vira: o garoto, como ele imaginava que estivesse, já não está mais choramingando no chão e parte para cima dele como um “marruá” acuado. Ele tenta sair para a direita e o aço da lâmina lhe fere no flanco, para a esquerda e, novamente, é atingido: está na hora do drible de efeito, da jogada de craque – no campo e na vida -, da finta de corpo, da ginga. E grita:
            _ Olha a “dibra”!
Mas sequer se meche, desta vez a zaga do destino se lhe antecipou ao lance e roubou-lhe a bola da vida. Tem apenas o tempo de ver o garoto recolher o canivete, “pedalar” sobre uma bola imaginária e desaparecer, correndo, no meio da multidão...


Francisco Ferreira



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